quarta-feira, 29 de junho de 2016

SESSÃO - AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO - 2008 (MIGUEL GOMES)






não podemos, hoje em dia, refazer ou copiar o passado, a américa, holywood, mas podemos estabelecer um diálogo com o que desapareceu. voltar a algo que o cinema de certa forma perdeu, talvez seu paraíso, essa espécie de inocência, de crença que o espectador tinha na primeira idade do cinema. 




eu creio que na época, era por exemplo mais fácil fazer uma cena na qual os personagens olham as nuvens e onde as nuvens se transformam em animais. porque o cinema era jovem e o espectador também. 




o cinema tem essa capacidade de fazer retornar essa crença, mesmo se a gente sabe que é falso, que não é a vida. eu penso que no cinema, hoje em dia, falta essa crença, essa juventude.





nossa memória carrega a memória de todos esses fantasmas do passado, e nós precisamos deles, de uma maneira muito emocional. é preciso fazer cinema contemporâneo tentando fazer voltar esses fantasmas da juventude do cinema.


Miguel Gomes - entrevista aos Cahiers du cinéma, dezembro 2012 ( nº 683 )



quarta-feira, 15 de junho de 2016

SESSÃO - O ALUCINADO - 1953 (LUIS BUÑUEL)




o que é a paixão? é um estado, é algo que te toma de assalto, que se apodera de você, que te agarra pelos ombros, que não conhece pausa, que não tem origem. na verdade, não se sabe de onde vem. a paixão simplesmente vem. é um estado sempre móvel, mas que não vai em direção a um ponto dado. há momentos fortes e momentos fracos, momentos em que ela  é levada à incandescência. ela flutua. ela balança. é uma espécie de instante instável que se persegue por razões obscuras, talvez por inércia. ela procura, ao limite, manter-se e desaparecer. a paixão se dá todas as condições para continuar e, ao mesmo tempo, para se destruir a si própria. na paixão, não se é cego. simplesmente, nestas situações de paixão não se é quem se é. não tem mais sentido ser quem se é. vê-se as coisas muito diferentemente.

na paixão, há também uma qualidade de sofrimento-prazer que é muito diferente do que se pode encontrar no desejo ou no que se chama sadismo ou masoquismo.

pode-se perfeitamente amar sem que o outro ame. é uma questão de solidão. é a razão pela qual, em algum sentido, o amor é sempre cheio de solicitações de um para com o outro. é aí que está sua fraqueza, porque pede sempre algo ao outro, enquanto que, no estado de paixão entre duas ou três pessoas, há algo que permite comunicar intensamente


Michel Foucault - Conversation avec Werner Schroeter (Dits et écrits II) - Gallimard

http://1libertaire.free.fr/MFoucault284.html
http://portalgens.com.br/portal/images/stories/pdf/estadosdepaixao.pdf