quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
NO UMBIGO DO DESERTO
Na medida em que o cinema não existe senão
relativamente a outras coisas, a ciência, o petróleo, o dinheiro, podemos falar
dele indefinidamente, sem avançar em outros domínios. Pode-se conhecer bem o
cinema, sua história, suas séries, sem progredir nada em outra parte, permanecendo
nele. Com exceções raríssimas como Ordet por exemplo, que atinge por meio de um
filme os limites da fé, que mostra por meio de um filme a força esmagadora,
inabordável, da ideia de Deus.
Marguerite Duras - Les yeux verts, edição
especial da revista Cahiers du cinéma, nº 312/313, junho de 1981
CINÉMA NON
Digo que todos podem falar de cinema. O cinema está aí e fazemos cinema. Nada preexiste a ele. Na maior parte do tempo, temos vontade de fazer cinema porque sua prática não necessita de nenhum dom particular; é um pouco como dirigir um automóvel. A maioria dos livros se fazem desta maneira. Mas não os confundimos com os outros livros, aqueles feitos no desconhecimento das leis do gênero. Mas no cinema, acontece de nos enganarmos, de tomarmos os Cahiers du cinéma pela Tel Quel, de tomarmos Gritos e sussurros por um filme pornô.
Somente sozinho pode-se pensar em escrever. Em qualquer lugar. Não importa em que caso. O cinema, não. O cinema não chama. Ele não espera, como o escrito, essa precipitação no livro. Quando ninguém faz cinema, o cinema não existe, jamais existiu. Quando ninguém escreve, o escrito existe ainda, sempre existiu. Quando tudo acabar, sobre o mundo que morre, o planeta cinza, o escrito existirá por toda parte, no ar do tempo, sobre o mar.
Marguerite Duras - Les yeux verts, edição especial da revista Cahiers du cinéma, nº 312/313, junho de 1981
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