terça-feira, 29 de abril de 2014

CAIXA - REFAZER O MUNDO






Como você, tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como você, eu esqueci. Por que negar a evidente necessidade da memória?




O estado de nossa pobreza se precisa. A paisagem está cheia de arame farpado. O céu fica rubro de explosões. Já que essa ruína não poupou a própria noção de cultura, é preciso ter a coragem de dispensá-la. É preciso se virar com pouco. Quando a casa já está em chamas, é absurdo querer salvar os móveis. Se resta uma chance a ser agarrada, é a dos vencidos.




Como no amor, esta ilusão existe. Esta ilusão de poder jamais esquecer.




Chegará um tempo no qual não poderemos de jeito nenhum nomear o que nos unirá. O nome se apagará aos poucos de nossa memória... Depois ele desaparecerá completamente.




O comunismo existiu uma vez. Durante dois tempos de 45minutos. No estádio de Wembley, quando o Honved de Budapeste venceu a Inglaterra, por 6 a 3. Os ingleses jogaram individualmente. Os húngaros jogaram em grupo.




Não somos turistas.



REFAZER O MUNDO

Hiroshima, mon amour - Alain Resnais, 1959. França, 90 min.

Nossa Música (Notre Musique) - Jean-Luc Godard, 2004. França, 76 min.

Limite - Mário Peixoto, 1931. Brasil, 120 min.



sexta-feira, 25 de abril de 2014

CAIXA - DESVIAR






- Eu não sei muito bem como falar se deve falar com uma mulher. Não sou muito falador.


- Quantos anos você tem?

- 23.

- Quanto tempo esteve na prisão?

- 7 anos.





- Então, diga-me o resto de seus antecedentes criminais.

- Uma vez eu mudei minha cor, mas não funcionou, então mudei de volta.

- Ouviu dizer que a força aérea mexicana está bombardeando plantações de maconha?

- Eu pergunto-me o que mais está acontecendo no mundo real ... Ouviu alguma notícia sobre a greve?

- Não muito. Eu prefiro música.





Nenhuma lei dos deuses é mais temida do que aquela que guarda a donzela escolhida. Os homens não devem tocá-la ou lançar sobre ela olhares de desejo.



     DESVIAR

     Tabu - F. W. Murnau e Robert Flaherty, 1931. Estados Unidos. 81 min..

     Zabriskie Point - Michelangelo Antonioni, 1970. Estados Unidos.113 min.

    Amarga Esperança (They live by night) - Nicholas Ray, 1948. Estados Unidos. 95 min.




quinta-feira, 24 de abril de 2014

SIM NÃO







Pátio - Glauber Rocha (1959)



DIÁLOGO




A – Quantos homens já esqueceu?
B – O número de mulheres que você lembra.
A - Não vá embora.
B – Nem me mexi.
A – Me diga algo agradável.
B – Claro. O que quer ouvir?
A – Minta pra mim. Diga que me esperou esses anos todos.
A – Diga.
B – Esperei todos esses anos.
A – Diga que morreria se eu não tivesse voltado.
B - Eu morreria se você não tivesse voltado.
A –Diga que ainda me ama como eu te amo.
B – Ainda amo você, como você me ama.
A –Obrigado.  Muito obrigado.



quarta-feira, 23 de abril de 2014

HAWKS NA TV




HAWKS NA TV – Revi “Os homens preferem as louras”, filme de culto, supostamente adorado, visto e revisto e que, sexta à noite, apesar da v.o., me pareceu sem interesse. O charme desapareceu e as cenas hilariantes eram simplesmente engraçadas. Era por causa do humor do dia? Rever filmes na tv, é antes de tudo devolvê-los à sua heterogeneidade de base. Emum meio tão fragmentado-fragmentador como a tv, os filmes que não tiravam sua “unidade” senão do dispositivo-sala (contrato sala-filme-público) devem ser revistos tal qual eles são no fundo: descosturados, mal costurados.

No caso de Hawks, é muito surpreendente. Mas já “Monkeybussiness” só se sustenta graças à última parte, quando tudo perde o prumo e o verdadeiro bebê entra em jogo. Em “Gentlemen preferblondes” tudo é como que à imagem dos letreiros, muito elegantes, que estão inseridos na canção do início (“We are twolittle girls, from Little Rock. We live on the wrong side of the track... ”)àmaneira de um zapear. O filme é tão somente uma sequência de bons números musicais (com a desvantagem de ter duas estrelas que não dançam), com um pouco de burlesco escabroso ao redor e um pouco de arbitrário ao invés e no lugar de fantasia.

Mistério (à medida que eu escrevo, ainda assim) deste filme que nós tínhamos como um monumento ao passo que se trata de uma maneira muito elegante (quase um blefe) da parte de Hawks de resolver uma equação de n variáveis. Como filmar a “camaradagem” das mulheres é evidentemente uma questão que ele só pode resolver no modo da analogia com a camaradagem dos homens (o velho tema hawksiano: quem vela por quem?). Ela é pois totalmente inverossímil. Hawks sequer tentou dissimular: as duas garotas jamais se “comunicam” (a não ser na ação), cada uma desempenha separadamente seu papel (a cínica inocente, a sentimental inescrupulosa), uma não ouvindo a outra (o som dos filmes da época, decididamente cinema mudo, agrava este sentimento de autismo).

O autismo é de certa forma o tema do filme. As garotas não se falam de verdade, os homens são uns horrores (um velho nojento, um bilionário idiota, um tira sinistro, uma criança já envelhecida), só resta uma coisa a fazer(esperando tudo disso): descer as escadas “juntamente”com um ar idiotamente conquistador, afim de ganhar tempo e de gritar seu desejo.

É talvez aí que o filme é mais “verdadeiro” (não precisamos nos dar ao esforço de “sustentar” nada) e menos convincente na tv. Por que? Porque todos os filmes cuja “fachada” é a verdade última (filmes de uma só dimensão,paetado, mimético e dissuasivo ao mesmo tempo) são aqueles para os quais a tv – e esta é sua função cardeal - é mais dura. Certos Hitchcock, como “Intriga internacional”, eles também feitos sob o efeito de sideração (sideração como tapa-sexo) e de sedução, pareceram-me perder certas coisas, como uma camada de verniz, na tv. Inversamente, os filmes construídos com a força de convicção, os valores humanos em jogo, ganham na tv (Chaplin, Capra). No fim das contas é lógico: a sedução-cine dos anos cinquenta está muito próxima de sua sequência-tv, dela se distinguindo mal. Vimos, desde então, mesmo em versões medíocres ou berlusconianas, várias dessas descidas de escadas. Essa aqui é – no gênero - a melhor (because Marilyn e Russell), mas não dava para fazer um filme.


1988
Serge Daney – L’exercice a été profitable, Monsieur, P.O.L.



ABSTRAÇÃO




Tenho a impressão de que a televisão destruiu certas terminações nervosas. Vemos tantas mortes que tudo se atenuou. Há menos barreiras de julgamento. Vendo uma garotinha que desenha uma amarelinha no chão enquanto ouvimos um homem assobiar fora de campo, a gente já se dispersaria. O cinema torna-se cada vez mais menos abstrato. Ora, há na abstração uma ponta de flecha. Eu não sei se poderíamos suportá-la.


Claire Denis – entrevista ao Cahiers du Cinéma, julho-agosto 2013 ( nº  691)



terça-feira, 22 de abril de 2014

CONTINUAR

 






               Como se passa de um plano a outro? Ou seja: afinal, por que se faz um plano depois do outro? Falávamos ontem do cineasta amador, que filma apenas um plano. Filma seus filhos ou sua mulher saindo da água, na praia... depois o natal... ou seu aniversário... Esta é aliás, a propaganda das câmeras: "filme seu filho soprando as velas"... Mas nunca há duas imagens. A Kodak diz: "Filme aquela imagem", mas não lhe diz depois: "Filme a imagem do momento em que você lhe dá uma bofetada"... Mas então, seria preciso que você estivesse interessado na vida familiar... Bom, estamos interessados na vida familiar porque a vivemos, mas seria preciso que o papai ou a mamãe que filma pensasse que o filme vai ser útil para suas relações em família; então, terá necessidade de fazê-lo; só por isso. Se não tem necessidade disso, não tem necessidade de cinema. Os cineastas amadores não fazem cinema; não têm necessidade disso. mas os cineastas profissionais introduzem não somente um plano após o outro, introduzem oitocentos planos uns atrás dos outros. Pode-se apostar (é o que acontece atualmente) que esses oitocentos planos são todos o mesmo: é um plano multiplicado por oitocentos. Então, contratam-se atores para mostrar... ou mudam-se os títulos dos filmes porque, se conservássemos o mesmo título, não haveria mais espectadores. Então, como estão embrutecidos pelo trabalho - na universidade ou na fábrica - que fizeram, não percebem que se trata do mesmo filme.


Jean-Luc Godard - Introdução a uma verdadeira história do cinema - Martins Fontes



segunda-feira, 21 de abril de 2014

DESLOCAMENTO








Lógica do andarilho, do monologador, do masturbador. Necessidade do relato. Do cinema antigo, o mais belo (os títulos mais presentes neste momento são “O mensageiro do diabo” (The night of the hunter) e “A palavra” (Ordet)), o que eu retenho senão que eles avançam, a golpes de planos ao mesmo tempo inesperados e fatais, sobre vários planos ao mesmo tempo. Nos filmes ruins, nada se move: é a programação do roteiro que faz o quadro[1] se mover. Nos bons filmes, move-se ao menos um elemento, o qual tem o orgulho e a humildade de se obrigar a redescobrir a cada instante o resto do quadro (que, na verdade, não se move). E Esta estranha emoção, na cena de “Pickpocket” na qual o trem deixa a estação de Lyon porque algo, que não é nem o personagem nem a plataforma, mas um terceiro ladrão, se move: o trem. Emoção irônica: você foge mas você está imóvel. Nos grandes filmes, cada elemento do quadro se move, mas à diferentes velocidades. O céu é, melhor do que a tela branca de cinema, a metáfora última destes filmes, por causa das nuvens.

1988
Serge Daney – L’exercice a été profitable, Monsieur, P.O.L.

  




[1]Daney usa para quadro o termo tableau, que refere-se ao quadro pictórico . O termo usado para o quadro cinematográfico, cadre, não é empregado neste trecho.



CORES, NOMES






 O canto do estireno (Le chant du styrène) 1958 - Alain Renais



domingo, 20 de abril de 2014

COPACABANA, MON AMOUR






Copacabana, mon amour - Rogério Sganzerla (1970)



ENTRE AS COISAS




Caçada trágica

13 de dezembro de 1975, quarenta e duas pessoas partem para Java, para caçar o crocodilo. Vinte e oito homens e catorze mulheres. Eles alugam dois barcos e avançam, carregados de provisões, ao longo do rio.
Quando chegam ao local – um espelho de água no pé de um rochedo imenso e sinistro – os crocodilos viram as embarcações e comem todo mundo. Provisões incluídas.


Michelangelo Antonioni – Ce bowling sur le Tibre –Éditions Images Modernes



O silêncio

No início, um diálogo breve, no decorrer do qual é colocada em evidência uma confusão que os dois esposos se dissimulam há anos. Sempre a mesma rotina, sempre a mesma tristeza. Mas, visto que finalmente, por acaso, eles começaram a falar, a mulher quer ir até o fim.
- Reconheça que acabou. Assim tudo ficará claro e a gente vai saber o que deve ser feito. Basta sabermos o que queremos. Não é verdade? Responda. É verdade?
O homem balança a cabeça sem nada dizer. Ela também se cala. Agora que tudo está claro, agora que eles são sinceros, eles não têm nada a se dizer. Filmar desta vez não seus diálogos, mas seus silêncios, suas palavras silenciosas. O silêncio como a dimensão negativa das palavras.

Michelangelo Antonioni – Écrits – Éditions Images Modernes



Há alguns anos, eu fiz uma viagem ao norte da europa, no final do outono. Peguei um helicóptero e fui ver como viviam os habitantes de uma pequena ilha do arquipélago finlandês, local de vilegiatura no verão, deserto no inverno - com exceção dos indígenas. Havia dois ou três homens que cortavam madeira, o mesmo número de mulheres cozinhando em suas casas, algumas crianças brincando. Pinheiros, bétulas, gelo, neve, vozes aveludadas, risos de criança: uma atmosfera de uma serenidade tal que a gente ficava ao mesmo tempo encantado e desconcertado.
                Se eu tivesse filmado um documentário nesse canto da Finlândia nesse dia, que tipo de atividade eu estaria fazendo? Qual “verdade” eu teria exprimido? Provavelmente nenhuma, exceto a referente à curiosidade que sentiam aquelas poucas pessoas ao nos ver. É a habitual melancolia das viagens: não poder participar da realidade que se visita, sermos sempre e inexoravelmente intrusos; como tal condenados a ver essa realidade se transformar uma vez que ela entra em contato conosco. É como o estudo do microcosmo: transformamos um fenômeno ao observá-lo, a partícula que tentamos observar muda de trajetória. Em outros termos, a observação da realidade é impossível se não for feita no plano poético.

Michelangelo Antonioni – Écrits – Éditions Images Modernes





Lo sguardo di Michelangelo - Michelangelo Antonioni (2004)



sexta-feira, 18 de abril de 2014

BELA COMO UMA FLOR DE CARNE





                                                      L'Étoile de mer - Man Ray (1928)



PAISAGEM NATURAL DA MENTE




DA ABJEÇÃO
JACQUES RIVETTE  CAHIERS DU CINÉMA  Nº 120  JULHO 1961

O mínimo que se pode dizer, é que é difícil, quando se organiza um filme sobre um tal assunto (os campos de concentração), não se colocar certas questões prévias; mas tudo se passa como se, por incoerência, estupidez ou covardia, Pontecorvo tivesse resolutamente negligenciado colocá-las.
Por exemplo, a questão do realismo: por várias razões, fáceis de compreender, o realismo absoluto, ou o que pode valer por ele no cinema, é aqui impossível; toda tentativa nesta direção é inacabada (“logo imoral”), toda tentativa de reconstituição ou de maquiagem, derrisória e grotesca, toda aproximação tradicional do “espetáculo” é do domínio do voyeurismo e da pornografia. O diretor tem então que tornar insosso, para que o que ele ousa apresentar como a “realidade” seja fisicamente suportável para o espectador, que em seguida somente poderá concluir, talvez inconscientemente, que, claro, foi penoso, esses alemães selvagens, mas não intolerável no fim das contas, e que se comportando bem, com um pouco de astúcia ou de paciência, era possível se salvar. Ao mesmo tempo, cada um se habitua perfidamente ao horror, que entra aos poucos nos costumes, e logo fará parte da paisagem natural do homem moderno. Quem poderá, da próxima vez, espantar-se ou indignar-se com o que terá cessado de ser chocante?
É aí que se compreende que a força de Noite e Neblina (Nuit et Brouillard) vinha menos dos documentos do que da montagem, da ciência com a qual os fatos brutos, reais, ora!, eram oferecidos ao olhar, num movimento que é justamente aquele da consciência lúcida e quase impessoal, que não pode aceitar compreender e admitir o fenômeno. Pudemos ver alhures outros documentos mais atrozes que os selecionados por Resnais: mas a que o homem não pode se habituar? Ora, não se habitua a Noite e Neblina. É que o cineasta julga aquilo que ele mostra, e é julgado por sua maneira de julgar.
Outra coisa: citou-se muito, à esquerda e à direita, e no mais das vezes bastante hipocritamente, uma frase de Moullet: “a moral é uma questão de travellings (temos a versão de Godard: “os travellings são questão de moral”). Quis-se ver aí o cúmulo do formalismo, ao passo que se poderia antes criticar o excesso “terrorista”, para retomar a terminologia paulhaniana. Veja contudo, em Kapo, o plano no qual Riva se suicida, jogando-se sobre o arame farpado eletrificado. O homem que decide, neste momento, fazer um travellingde aproximação para reenquadrar o cadáver em contra-plongée, tomando cuidado em inscrever a mão levantada exatamente em um ângulo de seu enquadramento final, este homem não tem direito senão ao mais profundo desprezo. Há alguns meses temos sido importunados  com os falsos problemas da forma e do conteúdo, do realismo e da fantasia, do roteiro e da “mise-en-scène”, do ator livre ou dominado, e de outras tolices; digamos que todos os sujeitos nasçam livres e iguais em direito; o que conta é o tom, ou o acento, a nuance, como se queira chamar – ou seja, o ponto de vista de um homem, o autor, mal necessário, e a atitude que este homem toma em relação ao que ele filma, e pois em relação ao mundo e a todas as coisas: o que pode se exprimir pela escolha das situações, a construção da intriga, os diálogos, o jogo dos atores, ou a pura e simples técnica, “indiferentemente mas tanto quanto”[1]. Há coisas que só podem ser abordadas no temor e no terror; a morte é uma delas, sem dúvida. E como, no momento de filmar uma coisa tão misteriosa, não se sentir um impostor? Melhor seria em todo caso se colocar a questão, e incluir esta interrogação, no que se filma; mas a dúvida é justo aquilo de que Pontecorvo e seus semelhantes são desprovidos.
Fazer um filme é pois mostrar certas coisas, é ao mesmo tempo, e pela mesma operação, mostrá-las de um certo viés; sendo estes dois atos rigorosamente indissociáveis. Do mesmo modo que não pode haver um absoluto da mise-en-scène, pois não há mise-en-scène no absoluto, do mesmo modo o cinema jamais será uma “linguagem”: as relações do signo ao significado não estão em curso aqui, e não conduzem senão a tão tristes heresias como a pequena Zazie. Toda abordagem do fato cinematográfico que se propõe a substituir a síntese pela adição, a unidade pela análise, nos envia de imediato a uma retórica de imagens que não tem mais à ver com o fato cinematográfico como o desenho industrial com o fato pictórico. Por que esta retórica continua tão cara àqueles que se auto-intitulam “críticos de esquerda”? – talvez, no fim das contas, eles sejam antes de tudo irredutíveis professores. Mas se nós sempre detestamos, por exemplo, Pudovkin, De Sica, Wyler, Lizzani, e os antigos combatentes do Idhec, é porque o resultado lógico deste formalismo chama-se Pontecorvo. Pensem o que pensem os jornalistas express, a história do cinema não entra em revolução toda semana. A mecânica de um Losey, a experimentação nova-iorquina não a perturba do mesmo modo que as ondas da greve não perturbam a paz das profundezas. Por que? É que alguns só se colocam problemas formais e outros os resolvem todos antecipadamente não se colocando problema algum. Mas o que dizem antes aqueles que fazem realmente a história, a quem chamamos também “homens de arte”? Resnais confessará que se tal lançamento semanal interessa o espectador que há nele, é contudo diante de Antonioni que ele tem o sentimento de ser somente um amador, do mesmo modo que Truffaut falará provavelmente de Renoir, Godard de Rossellini, Demy de Visconti. E como Cézanne, contra todos os jornalistas e cronistas, foi aos poucos imposto pelos pintores, assim os cineastas impõem à história Murnau ou Mizoguchi.




[1] Rivette faz uso de um verso de Mallarmé presente no poema Um lance de dados ( Un coup de dés): “indifférement mais autant”.




                                           Je vous salue, Sarajevo - Jean-Luc Godard (1993)



quinta-feira, 17 de abril de 2014

CAIXA - MÚSICA QUE NÃO PENSO



















Três quartos dos meus filmes poderiam não ter música. Eu coloquei, mas se não houvesse, o filme não seria diferente. Em Alphaville, a música parece estar em contraponto e mesmo em contradição com a imagem: ela tem um lado tradicional, romance, que desmente o mundo de Alpha 60. É que ela é um dos elementos da narrativa: ela evoca a vida, é a música dos mundos exteriores. E, como os personagens frequentemente falam dos mundos exteriores, ao invés de filmá-los, eu fiz com que se ouvisse a música deles. São sons que possuem um valor de imagem. Eu jamais utilizei a música de outro modo. Ela tem o mesmo papel que o preto na pintura impressionista.

Jean-Luc Godard par Jean-Luc Godard (tomo 1 1950-1984), Cahiers du Cinéma

Trecho de entrevista publicada no nº 171 dos Cahiers du Cinéma, outubro de 1965



MÚSICA QUE NÃO PENSO

Hamaca Paraguaya de Paz Encina, 2006.  Paraguai. 78 min.

L'étoile de Mer de Man Ray, 1928. França. 17 min.

Mãe e Filho (Mat' I Syn) de Aleksandr Sokurov, 1997. Rússia.73 min. 

Oharu, A vida de uma cortesã (Saikaku Ichidai Onna) de Kenji Mizoguchi, 1952. Japão. 148 min.